Meninas nas escolinhas de futebol: um salto para a igualdade de gênero dentro de campo

Foto: Tamires Febronio I Reprodução: Taubaté/Rafael Citro I Reprodução: Agência Corinthians/Bruno Rocha

Um passo à frente da maioria das escolinhas de futebol, o Pelado Real Futebol Clube foi criado exclusivamente para mulheres e se destaca pelo grande número de garotas matriculadas. A instituição começou suas atividades destinadas às jogadoras adultas, mas com o passar do tempo, os treinos expandiram para as crianças. A partir da aula experimental, em 2016, a categoria começou a caminhar.


Na capital paulista, a associação é a única que trabalha exclusivamente com mulheres e meninas. Para a gerente de futebol do Pelado Real, Paula Matsu, isso só tende a se popularizar: “O número de interessadas só aumenta, pois as outras escolinhas, normalmente, são de times mistos e têm mais meninos que meninas. Quando os pais trazem suas filhas aqui pela primeira vez até se assustam devido à quantidade de garotas que treinam aqui”, declara Paula.


Giovana, Palmeirense, atua como zagueira. Aos 3 anos, quando começou a jogar bola, já demonstrava interesse na posição. Apesar de nova, a garota já tem consciência do cenário feminino do futebol no país: “Eu quero muito ser jogadora profissional, mas como aqui no Brasil as jogadoras são desvalorizadas, eu quero ir pra fora, assim como fizeram as minhas duas referências: a Marta e a Formiga. Eu quero jogar no Real Madri”.


Ao contrário da colega, Pietra, de 11 anos, que começou recentemente na escola: “Aqui no Pelado é muito legal porque somos todas meninas, então somos todas iguais e o futebol feminino só tem a crescer mais e mais. Desde os 7 anos eu gosto de jogar bola, jogava na educação física e no recreio, mas sempre quis treinar numa escolinha de verdade. Então, nós soubemos do Pelado e viemos pra cá”, explica a garota.


A escola, em parceria com a Turma da Mônica, é responsável pelo projeto Soccer Camp Donas da Rua, evento realizado todos os anos em São Paulo. Ele tem como objetivo proporcionar às alunas e seus familiares um final de semana com atividades futebolísticas. Entre elas, estão as palestras, que buscam desenvolver o senso de coletividade e orientar as meninas da importância que a mulher tem na conquista pelo seu espaço.


Já participaram desse projeto a coordenadora do departamento de futebol da FPF (Federação Paulista de Futebol) e ex-jogadora, Aline Pellegrio; a jogadora da seleção canarinho, Cristiane, e a rainha das embaixadinhas, Milene Domingues. “Toda vez que tem a edição do Soccer Camp, o número de matrículas sobe. A parceria com o Donas da Rua da Turma da Mônica tem tudo a ver com a nossa causa que é o empoderamento feminino”, comenta a gerente Paula Matsu.


Os professores Jorge Lázaro Polettini e Adriano Missiani Ridolfi são coordenadores de uma escolinha de futebol para jovens de 3 a 17 anos, em Bragança Paulista (SP), filiada ao Boca Juniors. A abertura oficial da unidade será no fim de abril, mas uma aula inaugural já estreou os gramados no início do mês.


De acordo com os profissionais, há turmas masculinas pré-formadas, mas a intenção é abrir espaço para as meninas, conforme elas demonstrem interesse. O intuito é atingir a meta até a inauguração: “A ideia é ter essa turma específica de meninas. Vem aumentando muito a procura, provavelmente porque o futebol feminino está mais em evidência na mídia”, afirma Jorge.


O treinador se mostra esperançoso com o trabalho que sua escolinha pode realizar no futebol feminino. Ele diz que a expectativa é criar um polo da categoria em Bragança Paulista para, quem sabe, servir de exemplo para as outras unidades. Para ele, não é apenas o momento midiático que está por trás do maior interesse das meninas. Há também a quebra de preconceito, um processo que se encontra em andamento: “Futebol não é mais coisa só de menino”, diz Jorge.

Seu sócio, Adriano, explica quais são os números em unidades arredores. “Em Campinas, numa unidade tradicional de 100 alunos, 20% são meninas. As mais velhas estão em uma turma separada e as mistas estão treinando com os meninos. A gente tem muita escola do Boca em colégio particular, no colégio chega a 40%”, relata.


Maioria dos clubes engatinham no futebol feminino, mas há exceções

Se para toda regra há uma exceção, neste caso, a exceção tem nome e endereço: Ferroviária, de Araraquara (SP). O clube paulista tem 40 meninas em suas categorias de base, entre sub-15 e sub-17. Além disso, possui escolinhas de futebol em parceria com a Prefeitura da cidade, que atende mais de 30 garotas entre 8 e 12 anos.


Nós conversamos com a gerente de futebol feminino do clube, Ana Lorena Marche, que conta que 40% do elenco atual do time veio da própria base da Ferroviária. Porém, a dirigente reconhece que, de maneira geral, as meninas começam a jogar futebol formalmente muito tarde, com 18 anos ou mais. Ela acredita que frequentar uma categoria de base faz toda a diferença na carreira de uma jogadora.


“Os primeiros campeonatos de base estão surgindo, isso será muito importante para o desenvolvimento da modalidade, porém ainda precisamos de muitos campeonatos e pelo Brasil todo, não apenas no estado de São Paulo e para os clubes grandes”, ressalta.


Mylena Ferreira da Silva, conhecida como Mylena Carioca é atleta do SEEL/AD/EC Taubaté, time do interior de São Paulo, que disputa a série A2 do Brasileirão. Ela tem 19 anos, mas está desde os 14 no profissional. Aos 10, começou a frequentar uma escolinha de futebol. Segundo a menina:  “Fazer escolinha me ajudou muito, desde os fundamentos até a ter mais confiança em mim e em jogar, o que me ajuda muito no profissional. Sem falar no foco que eu tenho desde então”.


Muito cedo a atleta conheceu a discriminação, que infelizmente está enraizada no mundo do futebol. “Sofria muito preconceito pelo fato de ser mulher. Eles diziam pra eu ir embora, que eu não sabia jogar bola”, relata. Mas ela não estava sozinha. Mylena lembra de suas duas companheiras de escolinha. “Éramos em três: Lorena, Andressa e eu. E eu sou muito grata por tudo que passamos e ainda hoje elas me apoiam demais e isso é sensacional”, finaliza.

Também do interior, a camisa 10 do São Paulo Futebol Clube, Ary Borges, aos 7 anos começou a jogar bola com os primos por influência de um tio, que tinha um time de futebol e ensinava a garotada do bairro. Aos 10 anos ela se mudou para a capital paulista e deu início às aulas na escolinha: “Acho super importante, porque, querendo ou não, eu era apenas uma menina que gostava de jogar bola na rua. Mesmo não tendo ficado muito na escolinha, foi lá que eu comecei a levar a sério”, relembra.

A jogadora conta ainda, que no seu primeiro dia de aula, foi a última ser escolhida para o time: “Fiquei triste e meu pai disse pra eu ter calma e mostrar o que eu sabia. Daí a primeira bola que peguei, dominei, chutei e fiz o gol e eu ouvi um dos meninos dizendo ‘tá vendo, porque você não escolheu ela primeiro?’. Foi a primeira impressão que eles tiveram, por eu ser menina, achavam que eu não sabia jogar, mas depois foi mais tranquilo”, finaliza.

Entretanto, há aquelas que alavancaram como jogadoras sem terem a oportunidade de passar por uma escolinha de futebol.

A zagueira do Santos Futebol Clube, Ana Carolina, iniciou sua carreira em um time de faculdade, aos 15 anos. Isso proporcionou a ela bolsas de estudo no ensino básico e superior. Quando terminou a faculdade, recebeu o convite para jogar no Santos. “Meus pais foram meus maiores incentivadores. Na época pediam pra eu continuar a jogar, porque eles sabiam que era o que eu amava e diziam pra eu não me preocupar em trabalhar, mas sim em estudar”, relata.

Ana não pôde receber os ensinamentos profissionais da modalidade quando criança, mas não é o que recomenda para as futuras atletas. A longo prazo, ela acredita que para a modalidade crescer no país, o futebol feminino tem de estar presente na vida das meninas desde cedo: “Então, as escolinhas têm um papel fundamental no crescimento dessas meninas, não só como atleta, mas principalmente como mulher”, finaliza.

Conversamos também com a lateral-esquerda do Corinthians, Suelen Serra Rocha, 27 anos, que começou a jogar futebol aos 9 anos como uma forma de brincadeira com os amigos. Ainda sim, aos 13 ela já estava nas competições. Sem saber como seria se tivesse passado por alguma escolinha, ela comenta sobre a importância dessa oportunidade: “Pode ser que se eu tivesse feito, talvez teria ajudado mais, mas não sei o quanto mudaria na minha carreira. Até então, pouco se falava sobre o futebol feminino como hoje e ter escolinha direcionada para a modalidade é importante para as novas gerações”.



Eu quero ser uma jogadora profissional, e agora?

Para a menina que sonha em ser jogadora de futebol, o treinador Jorge aconselha a não ter pressa e não queimar etapas. Ele recomenda treinar em uma escolinha de futebol ou em clube, no condomínio ou até na rua, para que possa desenvolver as qualidades motoras que serão usadas no esporte.

De acordo com o treinador, é na faixa dos 13/14 anos que se deve fazer o encaminhamento. “Eu penso que antes disso a gente acaba frustrando muito as crianças, com ilusões de ‘Ah, eu vou ser uma Marta da vida’, mas é um caminho muito difícil. A criança deposita tudo nessa ficha que vai ser e acaba não sendo. Isso afeta a vida dela em outras coisas”, avisa.

A gerente de futebol feminino da Ferroviária lembra que é importante é estar jogando sempre. “Sempre se divertindo, as categorias de base precisam ser prazerosas e formar não apenas atletas, mas cidadãs para o futuro, pois muitas não irão se tornar jogadoras. Sempre importante olhar qual o projeto do clube e sua comissão técnica, eles precisam estar sempre alinhados com a família da menina”, explica.



Um ponto positivo Pela Real, exclusiva para meninas, é a presença dos pais. Mesmo com os treinos aos sábados de manhã, as famílias não deixam de se apresentar. “Nós temos muita sorte com os pais das meninas. Acredito que a nossa escolinha, por ser totalmente feminina, faz a diferença. A vontade delas jogar e o orgulho dos familiares é de se ver nos olhos, eles brilham assim que elas colocam os pés aqui. É gratificante”, diz Paula.

Em conversa breve com uma das mães, a senhora Cristina Macedo, disse que não mede esforços para apoiar a filha Giovana, de 10 anos: “A Gi sempre gostou mais de bola do que de boneca, sempre quis jogar futebol. E eu acho um máximo! Para mim não tem essa história de só menino poder jogar bola. Se ela vai ser jogadora de futebol eu não sei, mas o que eu puder fazer para incentivar enquanto ela quiser, eu farei”, afirma.


Ela relata que matriculou a filha em outras instituições, mas o efeito não era positivo. “Por muito tempo procurei uma escolinha em que ela pudesse treinar. Nós frequentamos algumas, mas eram times mistos e os meninos, ainda com preconceitos, a excluíam, não passavam a bola, não a deixavam jogar. E há dois anos ela começou a treinar aqui e adora! Acorda no sábado de manhã sozinha e super animada”, relata.