As Conquistas Delas: Debate sobre a ascensão do futebol feminino no Brasil

Encontro que reuniu jogadoras e ex jogadoras da seleção brasileira abordou o passado e o futuro das mulheres no futebol

Foto: Tatiane Pina

Com o objetivo de inspirar e inserir meninas e mulheres no mundo esportivo, o Museu do Futebol, sediado em São Paulo, abriu espaço para o bate-papo intitulado ‘As conquistas delas: a história de resistência do futebol feminino no Brasil’. Um público tímido, de pelo menos 300 pessoas, passou pelas dependências do Pacaembu na noite desta terça-feira (19) a fim de abordar o assunto.

A conversa descontraída teve a presença de Cristiane Rozeira, atleta da Seleção Brasileira, que atua no São Paulo Futebol Clube, Roseli de Belo, ex-jogadora do time canarinho e do ex-técnico da equipe, Renê Simões. Os convidados, experientes e percursores da modalidade, levantaram questões necessárias para o atual momento do futebol feminino e sobre as expectativas para o futuro.

 

O apito inicial

O futebol feminino sempre recebeu pouco apoio da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), ainda mais na década de 90, período em que Roseli de belo começou a calçar as chuteiras. Ela conta que tinha que jogar com o uniforme do time masculino. “Eu calçava 36 e usava uma chuteira 38”. Ainda completa. “Tenho até hoje a camisa do Romário”, fala.

As dificuldades enfrentadas no início tem poucas mudanças aparentes. Isso fez com que Cristiane anunciasse em 2017 sua saída da Seleção, após a demissão da treinadora Emily Lima. Ela revela ainda que a vontade de sair era desde 2016, após a derrota nas Olimpíadas, no Rio de Janeiro.

A atleta revelou que entrou em depressão, pois além de sofrer lesões e perder um pênalti na competição, sua avô faleceu. Contudo, Emily pediu que ela ficasse no grupo. “Foi o pior ano que eu já tive. Mas quando ela entrou pediu que eu ficasse dizendo que eu tinha uma voz ativa grande, além da experiência. Ela tentou me reativar, e conseguiu”, explica.


Machismo dentro e fora dos gramados

Cristiane contau que nunca sofreu com o machismo enquanto jogou fora do país, mas que no Brasil a prática é frequente. Quando jogava mal, ouvia comentários como “tinha que ser mulher”. “Não entendo como uma pessoa sai da casa dela para xingar o outro no estádio”, reclama.

O ex-treinador tomou as dores e ressaltou a importância dos homens darem voz às mulheres, “deixar que elas falem, que expressem suas emoções e opiniões, assim como, as mulheres têm que respeitar quando os homens querem ficar sozinhos”. Para ele, os gêneros são diferentes e por isso o modo de agir também.

A docente da área de gestão da Etec Albert Einstein, Shirley Alice, propôs que os alunos do curso de secretariado e administração fossem para a palestra ver mulheres ocupando um lugar, majoritariamente masculino. 

“Começamos a tratar sobre diversidade, e chegamos na parte de gênero, então, eu tive a ideia de trazê-los nesse evento para trabalhar e problematizar um pouco depois. Queria que os alunos tivessem contato com mulheres nessa luta constante do espaço que elas merecem e querem estar”, fala.

“Vi como uma grande oportunidade, por estar em contato com algo diferente do contexto organizacional, mas que tem tudo a ver com elas [professora apontou para as alunas presentes] e com os rapazes [alunos presentes]. Para que eles rompam cada vez mais com o machismo, e a gente se empodere cada vez mais como mulher”, completa a docente.

 

Brasil como sede da Copa do Mundo de 2023

O Brasil se candidatou para sediar a Copa do Mundo de futebol feminino em 2023, junto com outro 9 países, entre eles os colegas latinos Argentina, Bolívia e Colômbia. Segundo a FIFA (Federação Internacional de Futebol), essa é a primeira vez que tantos países demonstraram interesse em sediar a competição.

Para Cristiane, a federação escolherá o país que realmente fez algo pelo futebol feminino, que implantou mudanças para que a competição ganhasse visibilidade entre as pessoas. Sobre a obrigatoriedade dos clubes possuírem equipe feminina, implantada pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) ela expressa. “O problema é ser obrigatório, depois eles desmontam a equipe, assim como o Sport fez”, finaliza.