De Tabelinha com Carina Ávila

Por Jaqueliny Botelho 14/03/2019 - 11:55 hs

Carina Ávila tem 26 anos, é formada em jornalismo pela Universidade de Brasília - UNB e repórter do Globo Esporte de Brasília. Conversamos com a jornalista para entender a sua trajetória no jornalismo esportivo. Confira!

1) Como foi a sua caminhada no jornalismo? Já trabalhou em quais editorias e veículos de comunicação?

Fui aprovada na UnB pelo PAS no fim do ensino médio e comecei o curso em 2011. Meu primeiro estágio foi em 2012, como monitora de redação e língua portuguesa no Colégio Galois. Eu atendia alunos do ensino fundamental, ensino médio e curso pré-vestibular, corrigindo redações e tirando dúvidas de língua portuguesa. Passei um ano lá, principalmente na área de revisão de texto.

Em 2013, recebi uma proposta para estagiar em uma agência de comunicação chamada Profissionais do Texto. Passei um ano lá trabalhando como assessora de comunicação do principal cliente da agência, o IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração). Organizei e cobri eventos nacionais e internacionais, como a EXPOSIBRAM (Exposição Internacional de Mineração, que recebeu 90 mil pessoas em Belo Horizonte), também fazia a cobertura de audiências públicas, editava revistas, newsletters e fazia a assessoria de imprensa de maneira geral.

No início de 2014, saí do estágio na Profissionais do Texto porque consegui uma bolsa para fazer parte do meu curso de jornalismo em Sevilha, na Espanha. Era um convênio da UnB com a Universidad de Sevilla. A UnB organizou um processo seletivo e consegui a vaga para fazer a graduação sanduíche na cidade espanhola. Inicialmente, fui para ficar um semestre. Mas me apaixonei perdidamente pela cidade e solicitei a prorrogação. A Universidad de Sevilla aceitou e estudei lá por mais de um ano.

Em 2015 voltei para o Brasil e comecei a estagiar como repórter na editoria de esportes do jornal Correio Braziliense. Fiquei no Correio Braziliense por quase um ano e saí de lá porque fui aprovada no processo seletivo de estágio do Globo Esporte.

Em 2016 comecei a estagiar como produtora do Globo Esporte. No fim de 2016 eu me formei na Universidade de Brasília. Meu TCC foi um livro de crônicas sobre Sevilha, a cidade onde vivi por mais de um ano, meu lugar preferido no mundo. Em 2017, o livro foi publicado pela Outubro Edições. Quando me formei, não havia vagas na Globo e fui contratada pelo Correio Braziliense, para trabalhar como repórter na editoria de Cidades.

No início de 2017, a Globo abriu em parceria com o SporTV o processo seletivo do Projeto Passaporte, que selecionaria seis correspondentes internacionais para a Copa do Mundo da Rússia em 2018. Eu me inscrevi e comecei a fazer os testes. Foram dez provas, em cerca de seis meses de seleção. Eram 4 mil inscritos de todas as partes do país. Nunca imaginei que eu poderia ser selecionada. Mas no fim das contas, o maior sonho da minha vida se realizou! Ser correspondente internacional e cobrir uma Copa do Mundo!! Fui a única mulher selecionada e a única jornalista de Brasília. Além de mim, foram selecionados dois homens de São Paulo, dois homens de Minas Gerais e um cara do Rio de Janeiro.

Ao todo, foram três meses trabalhando na editoria de Cidades do Correio Braziliense. Saí, arrumei minhas malas e me mudei para o Rio, onde passaria seis meses me preparando para ser correspondente.

Fiquei seis meses em treinamento no Rio - trabalhei como editora de programas do SporTV, também como repórter do globoesporte.com, aprendi a mexer nos equipamentos de filmagem e gravação, tive cursos de edição de imagem, porque quando eu me mudasse de país, iria completamente sozinha.

No fim do treinamento, me informaram que eu iria para a Islândia e que minha missão era apresentar para os brasileiros este país estreante na Copa. Me mudei para a Islândia, fui completamente sozinha. Lá, eu precisava gravar, editar, escrever para o site, apurar, produzir pautas, captar imagens, fazer entradas ao vivo, fechar VTs... Foram cinco meses na Islândia. Depois que a seleção islandesa foi eliminada da Copa, fui enviada para a Dinamarca. Quando a Dinamarca foi eliminada, fui enviada para a Suécia. Passei três semanas trabalhando na Suécia – antes da Copa, eu já havia passado alguns dias na capital sueca, Estocolmo, produzindo e gravando reportagens.

Durante os seis meses de correspondente, também trabalhei na Inglaterra e na Espanha – cobri a torcida do Real Madrid, em Madri, na final da Champions League; fui a Sevilha gravar uma reportagem com o ex-jogador da seleção brasileira Carlos Alberto Pintinho; e passei uns dias trabalhando em Alicante.

Após a Copa, em agosto de 2018, voltei para o Brasil e fui contratada pelo Globo Esporte de Brasília, onde trabalho até hoje.

2) Como você chegou no jornalismo esportivo?

Sempre fui completamente apaixonada por esportes. Pratico e acompanho esportes desde pequenininha. E sempre sonhei em trabalhar com esportes. Quando fui estudar em Sevilha, pude fazer uma disciplina chamada Periodismo Deportivo (Jornalismo Esportivo), que a UnB não oferecia. Assim que voltei para Brasília, comecei a procurar estágios na área. Foi quando fui chamada pelo Correio Braziliense para a editoria de esportes. Foi meu primeiro trabalho como jornalista esportiva e eu amei. Essa experiência só confirmou e aumentou a paixão que eu tinha pela área.

3) Qual foi a matéria ou cobertura na editoria de esporte que mais te marcou?

Com certeza a cobertura da Copa do Mundo de 2018 nos países nórdicos. De longe a melhor e mais incrível experiência profissional da minha vida. Tenho um carinho muito grande e especial por todas as reportagens que fiz na Europa durante meus meses de correspondente. Como eu produzia, filmava, editava, dominava o processo do início ao fim, as matérias tinham muito a minha cara e personalidade.

4) Quais são suas referências femininas no jornalismo esportivo?

Quando eu era pequena, amava as reportagens de esportes radicais da Dani Monteiro. Depois que cresci, minha principal referência no jornalismo esportivo se tornou a Fernanda Gentil – que agora mudou para a área de entretenimento. Acho a Fernanda Gentil um monstro (no sentido positivo)!! Ela é genial. Sacadas rápidas, naturalidade, inteligência, bom-humor, ótima no improviso, superengraçada...

Também sou fã do trabalho da Marina Izidro, correspondente do SporTV em Londres. Muito carismática, atualizada, se expressa com facilidade, de uma maneira simples e simpática. A Júlia Guimarães é outra repórter que tem feito um excelente trabalho. Ela é fruto do mesmo projeto que eu (o Passaporte), foi selecionada na edição anterior para ser correspondente durante a Olimpíada de 2016. Ela é superboleira, tem muito conteúdo e entende demais de futebol. Tem ganhado bastante espaço na empresa.


5) No ano passado a hashtag #DeixaElaTrabalhar ficou bem popular. Muitas jornalistas denunciaram casos de assédio. Você já passou por um caso de assédio ou em algum momento se sentiu prejudicada por ser mulher?Quando fui cobrir a torcida do Real Madrid na final da Champions League do ano passado, precisava fazer gravações na frente do Estádio Santiago Bernabeu, onde os torcedores iriam se reunir para ver a partida contra o Liverpool em telões espalhados pelo gramado – o jogo estava acontecendo em Kiev, na Ucrânia. Cheguei com duas horas de antecedência. Precisava gravar boletins de um minuto, mas não conseguia gravar porque torcedores me agarravam toda hora. Eu começava a gravar e vinham grupos de torcedores me agarrar, aí eu começava de novo e vinha um torcedor me dar um beijo na bochecha, aí começava de novo e vinham ficar me apertando, me pedindo beijos, me abraçando, gritando adjetivos... Depois de duas horas tentando, eu ainda não tinha conseguido gravar um boletim bom na frente do estádio sem ser interrompida.

Além desse tipo de situação incômoda, sinto que muitas vezes alguns homens acham que não devo entender de futebol por ser mulher. Certa vez, eu estava acompanhando uma transmissão de jogo da Copa Sul-Americana e, toda vez que fazia alguma pergunta para o coordenador da transmissão, ele respondia a minha pergunta olhando para um dos homens que estavam comigo, ele não respondia para mim. Só respondia para homens. Mas, no meio do jogo, depois que ele foi vendo que eu sabia do que estava falando, que eu realmente entendia de futebol e estava ligada no que estava rolando na partida, ele começou a responder para mim as perguntas que eu fazia.

Às vezes faço algum comentário sobre futebol e os caras se espantam por eu, uma mulher, estar fazendo um comentário assim, de quem entende. Aí eles sempre dizem: “Nossa, mas você gosta mesmo de futebol, né?”. Se eu fosse um homem, com certeza eles não ficariam surpresos com um comentário futebolístico.

6) Você avalia que homem e mulher possuem as mesmas oportunidades no jornalismo esportivo?

Não, homens e mulheres não têm as mesmas oportunidades. Sinto que, como mulher, preciso estar sempre me provando. Preciso estar sempre provando que sei, provando que entendo, provando que não sou uma farsa e que não estou ali apenas por ser “um rostinho bonito”. Tenho que provar sempre que entendo de futebol e que mereço estar aqui. Infelizmente, o futebol ainda é um meio extremamente machista. Quando uma mulher diz que gosta de futebol, é comum ela ouvir de um homem: “Então explica o que é impedimento”. Como se o simples fato de saber a regra do impedimento a credenciasse para dizer que gosta de futebol. Mas se um homem diz que gosta de futebol, nunca questionam. As pessoas simplesmente acreditam. Nunca vi dizerem “explica o que é impedimento” para um cara. Muitas vezes as mulheres fazem comentário ou dão opiniões sobre futebol e os homens não levam a sério. Mas se fosse um homem fazendo o mesmo comentário, dariam atenção.

Mas vejo também o quanto a situação está evoluindo. As mulheres vêm ganhando cada vez mais espaço e visibilidade nesse meio.